*REFLEXÃO PARA O QUARTO DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 10,11-18*

Todos os anos, a liturgia do quarto domingo da páscoa se serve do capítulo décimo do Evangelho segundo João, no qual Jesus se auto apresenta como único, verdadeiro e bom pastor. Por isso, esse domingo foi batizado como o “domingo do bom pastor”. Nesse ano, o texto específico é Jo 10,11-18, versículos que contém, de fato, a apresentação de Jesus como pastor, uma vez que nos primeiros versículos ele tinha se apresentado simplesmente como a “porta das ovelhas” (cf. Jo 10,1-9).

*A imagem de Jesus como bom pastor caiu na graça do cristianismo desde os seus primórdios. Tornou-se clássico representá-lo como um pastor carregando uma ovelha nos ombros*, imagem bonita, mas que não corresponde exatamente ao que Jesus fala de si no Quarto Evangelho. Ora, *aquela bela imagem do pastor com a ovelha nos ombros corresponde ao personagem de Lucas na chamada “parábola da ovelha perdida” (cf. Lc 15,1-7). A imagem de pastor presente no Quarto Evangelho é bem diferente:* ele não carrega nem conduz ninguém nos ombros, pois isso é sinal de dependência e privação da liberdade. O pastor verdadeiro é aquele que aponta caminhos, é seguido porque o conhece verdadeiramente e se deixa conhecer.

É importante recordar que *a figura do pastor sempre foi muito significativa para o povo de Israel*. Desde o Antigo Testamento, essa imagem foi associada a Deus e também aos líderes que assumiram funções de guia e comando sobre o povo, como reis e sacerdotes, principalmente. Devido às infidelidades e descaso desses líderes, essa imagem foi se desgastando ao longo do tempo, sendo alvo de denúncias da parte dos profetas. Uma das denúncias mais fortes foi aquela do profeta Ezequiel: lamentando-se dos pastores de Israel que apascentavam a si mesmos, ao invés de apascentar o (povo) rebanho (cf. Ez 34,1-2), Deus toma a iniciativa de destituí-los e cuidar ele mesmo do rebanho (cf. Ez 34,11).

Jesus atualiza a perspectiva do profeta: sendo ele o único e autêntico pastor, estão destituídos os sacerdotes do templo e os mestres da lei. Suas palavras tiveram grande repercussão porque mexiam com os privilégios da classe dirigente de Israel, composta por funcionários do sagrado, ao invés de pastores verdadeiros. *A prova do incômodo causado pelas palavras de Jesus está na reação dos líderes judeus após o seu discurso: uns diziam que ele estava endemoniado (cf. Jo 10,20), outros queriam prendê-lo (cf. Jo 10,39)*. A mensagem de Jesus foi uma ameaça aos dirigentes que apascentavam apenas a si e às suas economias, explorando o povo ao invés de protege-lo.

Ainda a nível de contexto, é oportuno recordar que esse décimo capítulo do Quarto Evangelho é precedido pelo episódio, também polêmico, da cura do cego de nascença (cf. Jo 9,1-41). É clara a relação entre os dois textos: Jesus abre os olhos para que as pessoas não se deixem enganar pelos falsos pastores, e adquiram lucidez e conhecimento para seguirem ao único e verdadeiro pastor. Isso era inadmissível para um sistema religioso que dominava a partir do medo.

Após apresentar-se como porta das ovelhas, eis que ele se apresenta como pastor: *“Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas”* (v. 11). Jesus fala de modo claro, associando o discurso à práxis; diz que é o pastor bom e porque o é: porque dá a vida por suas ovelhas. A tradução mais justa é “Eu sou o pastor belo”; o evangelista emprega aqui um adjetivo que corresponde mais a belo do que a bom; o belo (em grego: hó kalós) tem um sentido mais profundo: não se trata de uma qualidade, mas da sua própria essência. Significa que Jesus é o modelo único de pastor. Só há um critério para verificar a bondade-beleza do pastor: a capacidade de dar a vida por suas ovelhas. A vida, nos escritos joaninos, está intrinsecamente relacionada ao ato de amar. Portanto, dar a vida significa amar sem limites. Essa é a essência do pastor belo.

Após apresentar-se como pastor, Jesus apresenta a sua antítese: *“O mercenário, que não é pastor e não é dono das ovelhas, vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as ataca e dispersa”* (v. 12). O termo mercenário (em grego:  mistotós), que se tornou tão pejorativo, equivale simplesmente a empregado, assalariado. Enquanto o pastor cuida das ovelhas por amor, a ponto de dar a vida por elas, o mercenário cumpre suas funções por pagamento e não chega a arriscar a vida por elas. Em situação de perigo, ele deixa o rebanho a mercê, *“pois ele é apenas um mercenário que não se importa com as ovelhas”* (v. 13). Aqui, Jesus chega ao ponto alto de sua crítica à hierarquia religiosa de Jerusalém. Aos sacerdotes do templo, não importava a situação do povo, eles pensavam apenas nas ofertas que recebiam.

O lobo representa todas as forças de morte, exploração e injustiça que ameaçam a comunidade e a humanidade de um modo geral. *Ao invés de combate-lo, a religião comandada por mercenários prefere aliar-se ou fugir dele*. No caso da religião praticada no tempo de Jesus na Palestina, havia conivência e conveniência entre as autoridades religiosas e o império romano, de modo que mercenário e lobo conviviam muito bem, espoliando as pobres ovelhas de Israel. É importante lembrar que *todas as denúncias feitas por Jesus às estruturas do seu tempo foram, ao mesmo tempo, alerta para que os seus seguidores não repetissem tais erros.*

Na sequência, Jesus explicita como se dá sua relação de pastor com as ovelhas: *“Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem”* (v. 14). Esse conhecimento recíproco sempre foi desejado por Deus ao longo da história: conheceu a Israel e deixou-se conhecer por ele, mas Israel rejeitou o conhecimento (cf. Os 4,6), por isso perdeu o seu rumo. Conhecer, na linguagem bíblica, não se trata de um ato cognitivo, mas de uma relação íntima e recíproca, motivada pelo amor, semelhante à relação de Jesus com o próprio Pai: *“Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu dou minha vida pelas ovelhas”* (vv. 14-15). A intimidade de Jesus com os seus é atestada pela sua capacidade de amar até dar a vida.

Enquanto os sacerdotes do templo pensavam relacionar-se com Deus através do sangue de animais derramado em sacrifício, Jesus se relaciona através do conhecimento recíproco, ou seja, através do amor. E esse modelo de relação, ele quer universalizar: *“Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo conduzir”* (v. 16a). Aqui está a abertura de horizonte. Por necessidade, o seu pastoreio começa por Israel, libertando o povo dos mercenários (dirigentes religiosos) e enfrentando o lobo (império romano). Mas é necessário, através da comunidade cristã, estender essa missão a todo o universo.

Nenhuma religião pode delimitar o alcance do amor de Deus: também aqueles que não estão no redil pertence a Deus e são amados por ele. Como diz Jesus, também *“elas escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor”* (v. 16b). A voz inconfundível de Jesus deve ressoar em todo o universo, expressa na linguagem do amor, jamais através de proselitismos ou ritos. Sobre o “sonho da unidade”, fazemos a seguinte observação: ao invés de um *“só rebanho e um só pastor”*, a tradução correta seria *“um só rebanho, um só pastor”*, sem a conjunção aditiva, como no texto grego (mía poímne, eis poimén), ressaltando a unidade entre o pastor e o rebanho, a ponto de serem uma coisa só; o pastor é rebanho, o rebanho é pastor, é essa a relação ideal na comunidade cristã, cujo pastor único é Cristo, mas está tão unido aos seus como a videira aos ramos (cf. Jo 15,1-5). A tradução *“um só rebanho e um só pastor” foi usada pela primeira vez por São Jerônimo, na Vulgata, e adotada pela Igreja* para ajudar a fundamentar a autoridade papal.

Jesus volta a ressaltar sua unidade com o Pai: *“É por isso que o Pai me ama, porque dou a minha vida, para depois recebê-la novamente”* (v. 17). Ora, é esse amor recíproco e incondicional que fundamenta e sustenta a relação entre Jesus e o Pai, e que é oferecido a toda a humanidade. Ao Pai, agrada a generosidade de Jesus: ele dá a sua vida livremente; a recebe novamente porque sabe que dar a vida por amor é, na verdade, estendê-la, torná-la eterna. A vida eternizada pelo amor se torna indestrutível, resiste até mesmo à morte. Por isso, de modo bastante categórico, Jesus declara: *“Ninguém tira a minha vida, eu a dou por mim mesmo”* (v. 18a). Não se trata de um mero entreguismo, nem de destino, nem de acidente; é consequência de suas escolhas, e sua grande escolha foi viver ilimitadamente o amor, e o amor incondicional não mede consequências.

A expressão *“tenho o poder de entregá-la e de recebê-la novamente”* (v. 18b) significa a plena consciência de estar amando com um amor igual ao do Pai. Inclusive, foi isso que o próprio Pai lhe pediu: *“essa é a ordem que recebi do meu Pai”* (v. 18c). Jesus recebeu do Pai a ordem de amar até dar a vida, obedeceu porque viviam uma relação de amor recíproco, a ponto de serem um só, como ele mesmo diz na continuação desse discurso: *“Eu e o Pai somos um”* (v. 30). É isso que ele pede aos seus seguidores de todos os tempos: viver em profundo amor entre si e com ele, de modo que a comunidade cristã seja *“um só rebanho, um só pastor”*, ou seja, uma comunidade de amor.

*Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró- RN*

Bispos reunidos em sua 56ª Assembleia Geral enviam mensagem ao povo de Deus

Em comunhão com o Papa Francisco, nós, Bispos membros da CNBB, reunidos na 56ª Assembleia Geral, em Aparecida – SP, agradecemos a Deus pelos 65 anos da CNBB, dom de Deus para a Igreja e para a sociedade brasileira. Convidamos os membros de nossas comunidades e todas as pessoas de boa vontade a se associarem à reflexão que fazemos sobre nossa missão e assumirem conosco o compromisso de percorrer este caminho de comunhão e serviço.

Vivemos um tempo de politização e polarizações que geram polêmicas pelas redes sociais e atingem a CNBB. Queremos promover o diálogo respeitoso, que estimule e faça crescer a nossa comunhão na fé, pois, só permanecendo unidos em Cristo podemos experimentar a alegria de ser discípulos missionários.

A Igreja fundada por Cristo é mistério de comunhão: “povo reunido na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (São Cipriano). Como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela (cf. Ef 5,25), assim devemos amá-la e por ela nos doar. Por isso, não é possível compreender a Igreja simplesmente a partir de categorias sociológicas, políticas e ideológicas, pois ela é, na história, o povo de Deus, o corpo de Cristo, e o templo do Espírito Santo.

Nós, Bispos da Igreja Católica, sucessores dos Apóstolos, estamos unidos entre nós por uma fraternidade sacramental e em comunhão com o sucessor de Pedro; isso nos constitui um colégio a serviço da Igreja (cf. Christus Dominus, 3). O nosso afeto colegial se concretiza também nas Conferências Episcopais, expressão da catolicidade e unidade da Igreja. O Concílio Vaticano II, na Lumen Gentium, 23, atribui o surgimento das Conferências à Divina Providência e, no decreto Christus Dominus, 37, determina que sejam estabelecidas em todos os países em que está presente a Igreja.

Em sua missão evangelizadora, a CNBB vem servindo à sociedade brasileira, pautando sua atuação pelo Evangelho e pelo Magistério, particularmente pela Doutrina Social da Igreja. “A fé age pela caridade” (Gl 5,6); por isso, a Igreja, a partir de Jesus Cristo, que revela o mistério do homem, promove o humanismo integral e solidário em defesa da vida, desde a concepção até o fim natural. Igualmente, a opção preferencial pelos pobres é uma marca distintiva da história desta Conferência. O Papa Bento XVI afirmou que “a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com a sua pobreza”. É a partir de Jesus Cristo que a Igreja se dedica aos pobres e marginalizados, pois neles ela toca a própria carne sofredora de Cristo, como exorta o Papa Francisco.

A CNBB não se identifica com nenhuma ideologia ou partido político. As ideologias levam a dois erros nocivos: por um lado, transformar o cristianismo numa espécie de ONG, sem levar em conta a graça e a união interior com Cristo; por outro, viver entregue ao intimismo, suspeitando do compromisso social dos outros e considerando-o superficial e mundano (cf. Gaudete et Exsultate, n. 100-101).

Ao assumir posicionamentos pastorais em questões sociais, econômicas e políticas, a CNBB o faz por exigência do Evangelho. A Igreja reivindica sempre a liberdade, a que tem direito, para pronunciar o seu juízo moral acerca das realidades sociais, sempre que os direitos fundamentais da pessoa, o bem comum ou a salvação humana o exigirem (cf. Gaudium et Spes, 76). Isso nos compromete profeticamente. Não podemos nos calar quando a vida é ameaçada, os direitos desrespeitados, a justiça corrompida e a violência instaurada. Se, por este motivo, formos perseguidos, nos configuraremos a Jesus Cristo, vivendo a bem-aventurança da perseguição (Mt 5,11).

A Conferência Episcopal, como instituição colegiada, não pode ser responsabilizada por palavras ou ações isoladas que não estejam em sintonia com a fé da Igreja, sua liturgia e doutrina social, mesmo quando realizadas por eclesiásticos.

Neste Ano Nacional do Laicato, conclamamos todos os fiéis a viverem a integralidade da fé, na comunhão eclesial, construindo uma sociedade impregnada dos valores do Reino de Deus. Para isso, a liberdade de expressão e o diálogo responsável são indispensáveis. Devem, porém, ser pautados pela verdade, fortaleza, prudência, reverência e amor “para com aqueles que, em razão do seu cargo, representam a pessoa de Cristo” (LG 37). “Para discernir a verdade, é preciso examinar aquilo que favorece a comunhão e promove o bem e aquilo que, ao invés, tende a isolar, dividir e contrapor” (Papa Francisco, Mensagem para o 52º dia Mundial das Comunicações de 2018).

Deste Santuário de Nossa Senhora Aparecida, invocamos, por sua materna intercessão, abundantes bênçãos divinas sobre todos.

Aparecida-SP, 19 de abril de 2018.

Cardeal Sergio da Rocha
Arcebispo de Brasília – DF
Presidente da CNBB

Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger, SCJ
Arcebispo São Salvador da Bahia
Vice-Presidente da CNBB

Fonte: www.cnbb.org.br

Padre Abraão, pároco da Paróquia de São José de Bolama está de Idade Nova Hoje .

Hoje é um dia especial para você, hoje você comemora mais um ano de vida, mais um ano de existência e de experiências. Hoje, as luzes do céu e as bênçãos do Senhor recaem sobre você. É dia de reafirmar a sua missão, a sua fé e o seu compromisso com a vida e com o bem.

Os seus familiares e amigos enviam para você energias e pensamentos positivos. Há boas vibrações para você, há luz e amor ao seu redor. Aproveite este momento mágico da vida e peça a Deus proteção, peça a Deus para lhe guiar e tomar conta dos seus caminhos, peça a Deus para segurar na sua mão enquanto você escreve a sua história. Agradeço por tudo o que você já viveu.

Aproveite o dia de hoje, viva-o com entusiasmo, alegria e humildade. Você é especial aos olhos de Deus e aos olhos de todos aqueles que lhe amam. Que Deus derrame o seu amor sobre você.

Parabéns e muitas felicidades!

56ª Assembleia Geral da CNBB tem início nesta quarta-feira, 11 de abril

http://www.cnbb.org.br/56a-assembleia-geral-da-cnbb-tem-inicio-nesta-quarta-feira-11-de-abril/

EXORTAÇÃO APOSTÓLICA GAUDETE ET EXSULTATE DO SANTO PADRE  FRANCISCO

http://m.vatican.va/content/francescomobile/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20180319_gaudete-et-exsultate.html

EXORTAÇÃO APOSTÓLICA
GAUDETE ET EXSULTATE
DO SANTO PADRE 
FRANCISCO

SOBRE A CHAMADA À SANTIDADE
NO MUNDO ATUAL

*REFLEXÃO PARA O II DOMINGO DE PÁSCOA – JOÃO 20,19-31*

A liturgia do segundo domingo da páscoa oferece Jo 20,19-31 para o evangelho, texto que narra a continuidade dos acontecimentos envolvendo a comunidade dos discípulos no dia mesmo da ressurreição, e a quase repetição da mesma experiência uma semana depois, ou seja, no domingo seguinte. *Esse texto é também a conclusão do Evangelho segundo João* (v. 31). O capítulo seguinte (c. 21) é um acréscimo posterior da comunidade para melhorar a imagem de Simão Pedro, tão desgastada após sua oposição a Jesus no lava-pés e a negação durante o processo.    No evangelho do domingo passado, contemplamos as reações da comunidade de discípulos logo no início daquele primeiro dia da semana, no qual fora constatado o sepulcro vazio (cf. Jo 20,1-9), inicialmente por Maria Madalena, e logo em seguida por Pedro e o Discípulo Amado. Dos três, somente o discípulo Amado acreditou na ressurreição diante do primeiro sinal, o sepulcro vazio (cf. 20,8). Maria Madalena foi a segunda a acreditar (cf. Jo,11-18), após confundir o Ressuscitado com o jardineiro, mas esse episódio já não constou no texto da liturgia do domingo passado.   Da madrugada do primeiro dia, passamos para o anoitecer, como diz o texto: *“Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e pondo-se no meio deles, disse: A paz esteja convosco”* (v. 19). Não obstante as frustrações e decepções com o final trágico de seu líder, condenado e morto na cruz, a reunião dos discípulos mostra que a comunidade está se recompondo, após uma natural dispersão. Embora se recompondo, essa comunidade continua em crise, o que se evidencia pela situação de medo informada pelo evangelista. Por “medo dos judeus” entende-se o medo das autoridades religiosas que condenaram Jesus em parceria com o império romano, e não todo o povo. É típico de João usar o termo “judeus” em referência às autoridades.   *O medo é preocupante, é um impedimento à missão; é fruto da angústia, da desilusão e do remorso de alguns; significa a ausência do Senhor. Sem a presença do Ressuscitado toda a comunidade perece e sua mensagem é bloqueada; as portas fechadas impedem a boa nova de ecoar.*   Manifestando-se no meio dos discípulos, o Ressuscitado inicia neles o processo de transformação, oferecendo o primeiro antídoto ao medo: o dom da paz! É o encontro com a paz de Jesus que levanta o ânimo da comunidade fracassada. *Jesus comunica a sua paz e, ao mesmo tempo, reforça o modelo de comunidade sonhado e praticado durante toda a sua vida: uma comunidade igualitária e livre, tendo um único centro: o Cristo Ressuscitado.* É esse o significado do seu colocar-se no meio deles. Para uma comunidade viver realmente os propósitos do Evangelho é necessário, antes de tudo, que ao centro do seu existir esteja o Ressuscitado.   Na continuidade da experiência, Jesus *“mostrou-lhes as mãos e o lado”* (v. 20a), ou seja, *as marcas do sofrimento, do flagelo e da cruz, garan isso *  A liturgia do segundo domingo da páscoa oferece Jo 20,19-31 para o evangelho, texto que narra a continuidade dos acontecimentos envolvendo a comunidade dos discípulos no dia mesmo da ressurreição, e a quase repetição da mesma experiência uma semana depois, ou seja, no domingo seguinte. *Esse texto é também a conclusão do Evangelho segundo João* (v. 31). O capítulo seguinte (c. 21) é um acréscimo posterior da comunidade para melhorar a imagem de Simão Pedro, tão desgastada após sua oposição a Jesus no lava-pés e a negação durante o processo.    No evangelho do domingo passado, contemplamos as reações da comunidade de discípulos logo no início daquele primeiro dia da semana, no qual fora constatado o sepulcro vazio (cf. Jo 20,1-9), inicialmente por Maria Madalena, e logo em seguida por Pedro e o Discípulo Amado. Dos três, somente o discípulo Amado acreditou na ressurreição diante do primeiro sinal, o sepulcro vazio (cf. 20,8). Maria Madalena foi a segunda a acreditar (cf. Jo,11-18), após confundir o Ressuscitado com o jardineiro, mas esse episódio já não constou no texto da liturgia do domingo passado.   Da madrugada do primeiro dia, passamos para o anoitecer, como diz o texto: *“Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e pondo-se no meio deles, disse: A paz esteja convosco”* (v. 19). Não obstante as frustrações e decepções com o final trágico de seu líder, condenado e morto na cruz, a reunião dos discípulos mostra que a comunidade está se recompondo, após uma natural dispersão. Embora se recompondo, essa comunidade continua em crise, o que se evidencia pela situação de medo informada pelo evangelista. Por “medo dos judeus” entende-se o medo das autoridades religiosas que condenaram Jesus em parceria com o império romano, e não todo o povo. É típico de João usar o termo “judeus” em referência às autoridades.   *O medo é preocupante, é um impedimento à missão; é fruto da angústia, da desilusão e do remorso de alguns; significa a ausência do Senhor. Sem a presença do Ressuscitado toda a comunidade perece e sua mensagem é bloqueada; as portas fechadas impedem a boa nova de ecoar.*   Manifestando-se no meio dos discípulos, o Ressuscitado inicia neles o processo de transformação, oferecendo o primeiro antídoto ao medo: o dom da paz! É o encontro com a paz de Jesus que levanta o ânimo da comunidade fracassada. *Jesus comunica a sua paz e, ao mesmo tempo, reforça o modelo de comunidade sonhado e praticado durante toda a sua vida: uma comunidade igualitária e livre, tendo um único centro: o Cristo Ressuscitado.* É esse o significado do seu colocar-se no meio deles. Para uma comunidade viver realmente os propósitos do Evangelho é necessário, antes de tudo, que ao centro do seu existir esteja o Ressuscitado.   Na continuidade da experiência, Jesus *“mostrou-lhes as mãos e o lado”* (v. 20a), ou seja, *as marcas do sofrimento, do flagelo e da cruz, garan isso

A liturgia do segundo domingo da páscoa oferece Jo 20,19-31 para o evangelho, texto que narra a continuidade dos acontecimentos envolvendo a comunidade dos discípulos no dia mesmo da ressurreição, e a quase repetição da mesma experiência uma semana depois, ou seja, no domingo seguinte. *Esse texto é também a conclusão do Evangelho segundo João* (v. 31). O capítulo seguinte (c. 21) é um acréscimo posterior da comunidade para melhorar a imagem de Simão Pedro, tão desgastada após sua oposição a Jesus no lava-pés e a negação durante o processo. 

No evangelho do domingo passado, contemplamos as reações da comunidade de discípulos logo no início daquele primeiro dia da semana, no qual fora constatado o sepulcro vazio (cf. Jo 20,1-9), inicialmente por Maria Madalena, e logo em seguida por Pedro e o Discípulo Amado. Dos três, somente o discípulo Amado acreditou na ressurreição diante do primeiro sinal, o sepulcro vazio (cf. 20,8). Maria Madalena foi a segunda a acreditar (cf. Jo,11-18), após confundir o Ressuscitado com o jardineiro, mas esse episódio já não constou no texto da liturgia do domingo passado.

Da madrugada do primeiro dia, passamos para o anoitecer, como diz o texto: *“Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e pondo-se no meio deles, disse: A paz esteja convosco”* (v. 19). Não obstante as frustrações e decepções com o final trágico de seu líder, condenado e morto na cruz, a reunião dos discípulos mostra que a comunidade está se recompondo, após uma natural dispersão. Embora se recompondo, essa comunidade continua em crise, o que se evidencia pela situação de medo informada pelo evangelista. Por “medo dos judeus” entende-se o medo das autoridades religiosas que condenaram Jesus em parceria com o império romano, e não todo o povo. É típico de João usar o termo “judeus” em referência às autoridades.

*O medo é preocupante, é um impedimento à missão; é fruto da angústia, da desilusão e do remorso de alguns; significa a ausência do Senhor. Sem a presença do Ressuscitado toda a comunidade perece e sua mensagem é bloqueada; as portas fechadas impedem a boa nova de ecoar.*

Manifestando-se no meio dos discípulos, o Ressuscitado inicia neles o processo de transformação, oferecendo o primeiro antídoto ao medo: o dom da paz! É o encontro com a paz de Jesus que levanta o ânimo da comunidade fracassada. *Jesus comunica a sua paz e, ao mesmo tempo, reforça o modelo de comunidade sonhado e praticado durante toda a sua vida: uma comunidade igualitária e livre, tendo um único centro: o Cristo Ressuscitado.* É esse o significado do seu colocar-se no meio deles. Para uma comunidade viver realmente os propósitos do Evangelho é necessário, antes de tudo, que ao centro do seu existir esteja o Ressuscitado.

Na continuidade da experiência, Jesus *“mostrou-lhes as mãos e o lado”* (v. 20a), ou seja, *as marcas do sofrimento, do flagelo e da cruz, garantindo a continuidade entre o Crucificado e o Ressuscitado.* Com isso ele diz que a cruz não foi o fim e, assim, leva os discípulos à restituição da fé, uma vez que o principal motivo da desilusão e decepção deles foi o escândalo de um messias crucificado. É importante recordar que *é João o único evangelista que se preocupa com esse detalhe: o Ressuscitado tem as marcas do Crucificado.* Ora, a cruz não foi um acidente na vida de Jesus, e não pode ser esquecida pela comunidade; pelo contrário, foi consequência de suas opções e do seu jeito de viver, e as opções da comunidade devem ser as mesmas. Portanto, é necessário que os discípulos estejam sempre, em todos os momentos da história, familiarizados com a cruz, não como símbolo ou adorno, mas como disposição de dar a vida por amor, como fez Jesus.

A presença do Ressuscitado transforma a comunidade: *“Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor”* (v. 20b). A alegria é o primeiro fruto da paz que faz superar o medo, e uma das características fundamentais da comunidade que sabe contemplar o Ressuscitado em seu meio. 

Já estabelecido como centro da comunidade, *“novamente Jesus disse: A paz esteja convosco”* (v. 21a). A paz como bem-estar do ser humano em sua totalidade é novamente oferecida. A passagem do medo à alegria poderia tornar-se uma simples euforia, por isso a paz é doada novamente para equilibrar a comunidade. Só é possível acolher os dons pascais estando realmente em paz. Aqui, *a paz não significa alívio ou tranquilidade, mas sinal de liberdade e vida plena; é a capacidade de assumir livremente as consequências das opções feitas.* 

Tendo plenamente comunicado a paz como seu primeiro dom, o Ressuscitado os envia, como fora ele mesmo enviado pelo Pai: *“Como o Pai me enviou, também eu vos envio”* (v. 21b). Ao contrário de Mateus e Lucas que determinam as nações e até os confins da terra como destinos da missão (cf. Mt 28,19; Lc 24,47; At 1,8), em João isso não é determinado: *“Como o Pai me enviou, também eu vos envio”*. Jesus simplesmente envia. *Sem diminuir a importância da missão em sua dimensão universal, o mais importante para o Quarto Evangelho é a comunidade.* É essa a primeira instância da missão, porque é nessa onde estão as situações de medo, de desconfiança, de falta de entusiasmo, por isso é a primeira a necessitar da paz do Ressuscitado. 

O texto mostra, como sempre, a coerência entre a prática e as palavras de Jesus: *“E depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo”* (v. 22). Jesus tinha prometido o Espírito Santo aos discípulos na última ceia (cf. Jo 14,16.26; 15,26). Ao soprar sobre eles, a promessa é cumprida, o Espírito é comunicado. O evangelista usa o mesmo verbo empregado no relato da criação do ser humano: *“O Senhor modelou o ser humano com a argila do solo, soprou-lhe nas narinas um sopro de vida, e o ser humano tornou-se vivente”* (Gn 2,7). O verbo soprar (em grego: emfsáo) significa doação de vida. *Assim, podemos dizer que Jesus recria a comunidade e, nessa, a humanidade inteira.* 

Ao receber o Espírito Santo (em grego: pneu/ma a[gioj – pneuma háguios), a comunidade se torna também comunicadora dessa força de vida. *É o Espírito quem mantém a comunidade alinhada ao projeto de Jesus*, porque é Ele quem faz a comunidade sentir, viver e prolongar a presença do Ressuscitado como seu único centro.

O Espírito Santo garante responsabilidade à comunidade, jamais poder. Por isso, devemos prestar muita atenção à afirmação de Jesus: *“A quem perdoardes os pecados eles lhes serão perdoados; a quem não perdoardes, eles lhes serão retidos”* (v. 23). Por muito tempo, esse trecho foi usado simplesmente para fundamentar o sacramento da penitência ou confissão. Jesus não está dando um poder aos discípulos, mas uma responsabilidade: reconciliar o mundo, levar a paz e o amor do Ressuscitado a todas as pessoas, de todos os lugares em todos os tempos. *A comunidade cristã tem essa grande missão: fazer-se presente em todas as situações para, assim, tornar presente também o Ressuscitado com a sua paz*. Não se trata, portanto, de poder para determinar se um pecado pode ou não pode ser perdoado. *É a responsabilidade da obrigatoriedade da presença cristã para que, de fato, o mundo seja reconciliado com Deus.* 

O Espírito Santo, doado pelo Ressuscitado, recria e renova a humanidade. *A comunidade tem a responsabilidade de fazer esse Espírito soprar em todas as realidades, para que toda a humanidade seja recriada e, assim, o pecado seja definitivamente tirado do mundo* (cf. Jo 1,29). João, o batista, apontou para Jesus como o responsável por fazer o pecado desaparecer do mundo. Agora, é Jesus quem confia à comunidade essa responsabilidade.  *Os pecados são perdoados à medida em que o amor de Jesus vai se espalhando pelo mundo, quando seus discípulos se deixam conduzir pelo Espírito Santo*. O que perdoa mesmo é o amor de Jesus; logo, ficam pecados sem perdão quando os discípulos e discípulas de Jesus deixam de amar como Ele amou. Em outras palavras, *os pecados ficarão retidos quando houver omissão da comunidade.*

É importante considerar ainda, como diz o próprio texto, que comunidade não estava completa naquele primeiro dia: assim como Judas não fazia mais parte do grupo, também *“Tomé, chamado Dídimo, que era um dos doze, não estava com eles quando Jesus veio”* (v. 24). É necessário destacar algumas características desse discípulo, considerando que o mesmo foi, injustamente, rotulado negativamente pela tradição.  *O motivo pelo qual os discípulos estavam reunidos à portas fechadas foi o medo*; ora, *se Tomé não estava com eles é porque não tinha medo* e, portanto, circulava livremente e sem temor algum; era, portanto, um discípulo corajoso, ao contrário dos demais. A evidência maior da coragem de Tomé aparece no episódio da reanimação de Lázaro. Jesus já tinha sido alvo de diversas ameaças e tentativas de assassinato pelas autoridades dos judeus; quando decidiu ir à Galileia, onde ficava Betânia, *Tomé foi o único a dispor-se a ir para morrer com ele: “Tomé, chamado Dídimo, disse então aos condiscípulos: Vamos também nós, para morrermos com ele!”* (Jo 11,16). Por isso, ele não tinha nenhum motivo para esconder-se dos judeus. *Essa sua coragem foi ofuscada pelo rótulo inadequado de incrédulo.*

*Quanto à fé no Ressuscitado, a diferença de Tomé para os outros dez deve-se apenas ao intervalo de uma semana.* Não estava reunido no primeiro dia e não acreditou no testemunho da comunidade. *Não dar credibilidade à comunidade foi, sem dúvidas, o seu grande erro, mas ao exigir evidências da ressurreição, ele agiu como os demais.* Ora, à exceção do Discípulo amado, o qual viu e acreditou logo ao contemplar o sepulcro vazio (cf. Jo 20,8), *os demais também só acreditaram após a manifestação do Senhor em seu meio.* Nenhum deles acreditou no testemunho de Maria Madalena; esperaram o Senhor aparecer. Quando, assim como os demais, Tomé teve certeza da ressurreição, superou a todos na intensidade e convicção da fé: *“Meu Senhor e meu Deus!”* (v. 28); *essa é a mais profunda profissão de fé de todos os evangelhos*. Jesus já tinha sido reconhecido como Mestre, como Senhor, como Messias, Filho de Davi, Filho do Homem e Filho de Deus, mas como Deus mesmo, essa foi a primeira vez. Com isso, o evangelista ensina que *não importa o tempo em que alguém adere à fé; o que importa é a intensidade e a convicção dessa fé.*

A propósito, chamamos a atenção para mais um detalhe que não pode passar despercebido: *diz o evangelista que Tomé era chamado Dídimo (em grego: dídimos), cujo significado é gêmeo*. No entanto, o evangelista não apresenta o irmão gêmeo de Tomé, mas deixa no anonimato, e *os personagens anônimos do Quarto Evangelho têm a função de paradigmas para a comunidade e os leitores*. Isso significa um convite aos leitores e discípulos de todos os tempos a tomarem Tomé como irmão gêmeo: questionador, corajoso, atento, perspicaz e convicto. 

É claro que se Tomé estivesse com a comunidade logo no primeiro dia, ele teria antecipado a sua profissão de fé. Mas é importante ser prudente e esperar, principalmente nos tempos atuais, com tantas visões, aparições e falsas certezas imediatas. *Se muitos e muitas videntes dos tempos atuais, assumissem a sua consanguinidade com Tomé, ou seja, se o reconhecessem como gêmeo, teríamos um cristianismo mais evangélico e autêntico*. 

A bem-aventurança proclamada por Jesus: *“Bem-aventurados os que creram sem terem visto”* (v. 28), reflete a preocupação do evangelista com as novas gerações de discípulos, após a morte da maioria dos apóstolos. *Os novos cristãos da comunidade joanina eram muito questionadores e chegavam a duvidar do anúncio, exigindo provas concretas da ressurreição*. Por isso, *o evangelista quis responder a essa realidade, mostrando que não há necessidade de visões e aparições; basta integrar-se a uma comunidade de fé para experimentar a presença do Ressuscitado*. A comunidade reunida é o lugar por excelência de manifestação do Ressuscitado. *Não importa o tempo e o lugar da adesão à fé; o que importa é acolher a paz que o Ressuscitado oferece e viver animado pelo Espírito que ele transmite.*

Como afirmamos no início, esse texto marca a conclusão original do Evangelho segundo João: *“Jesus realizou muitos outros sinais diante dos discípulos, que não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome”* (vv. 30-31).  O capítulo seguinte (c. 21) é um acréscimo posterior da comunidade para responder a uma outra necessidade: o resgate da imagem de Simão Pedro, questionada pela comunidade devido à negação e outras incoerências; e também para mostrar que sempre há a possibilidade de reabilitação e admissão à comunidade, não obstante os momentos de infidelidade e incoerência. O Senhor Ressuscitado insiste incansavelmente para recuperar um amor perdido.

*Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN*

Feliz Páscoa... Ele Ressuscitou Aleluia...

"...viram um jovem, vestido de branco. Mas o jovem lhes disse: “Não vos assusteis! Vós procurais Jesus de Nazaré, que foi crucificado? Ele ressuscitou. Não está aqui!" (Mc 16,5-6)

ELE RESSUSCITOU: essa é a razão da nossa pregação e da nossa fé; qualquer outro argumento, será sempre um elemento secundário! ELE RESSUSCITOU: isso é o essencial e suficiente para seguirmos os seus passos e vivermos segundo a sua proposta de vida!

Feliz Páscoa!